REAL, por Thaís Cardoso

Julho 6, 2008 por aicinema

De um monte de olhos, amassados e opacos; esse castelo. Areia que escorre. Rio de visões.

Quando amasso os olhos, cores se misturam. Vermelho em raios azuis. Nuvens correndo sem vento criam a coroa no topo da torre. Ciranda real.

A chuva traz brilho aos globos, como brotos de árvores desconhecidas.

O sal que escorre, forma um pântano, de cristal. Proteção de qualquer invasor que, quando entra, é trincado por lâminas rasas de chão.

Do sangue preto derramado, flores exóticas ornamentam.

Da carne sem vida que deita à porta, alimento.

Quando os leões de gesso ganham alma, o som é inconfundível. Novo instrumento feito de voz e tampas. Os escudos colaboram no reflexo.

O eco nas asperezas. Sopro irregular.

O tempo que apaga rugas nas paredes, finca sulcos no rosto dos bebês que, há muito, jazem no pátio central.

Lavam-se no encosto das pálpebras. Em pilhas cegas de tatos.

Um cheiro de novo vive no trono. Único lugar de escuro e silêncio.

Onde cada olho pode sossegar.

E fechar.

E mover-se rodopiando em um eixo só.

Sós.

Quando acordam percebem: viviam.

MARROM GLACÊ, por Vanessa Guedes

Julho 5, 2008 por aicinema

A mocinha andava muito da preocupada. Havia algo que não lhe cheirava bem. Seus passos estavam escorregadios, justo ela, sempre tão equilibrada por conta dos seis dedos que tinha em cada pé. As cores? Não entendia as cores. Gradativamente, o mundo tingia-se de marrom. Sentia-se enganada pelos seus sentidos.

Ao seu redor a vida ocorria como sempre ocorreu. Menos para ela. Para a mocinha, nada dava certo, nada dava, ela mesma não dava de uns tempos pra cá, desde quando pôs reparo em sua preocupação, que virou angustia, que virou paranóia, que virou obsessão por galochas.

Galochas! Sim: galochas protegeriam seus doze dedos das ruas pastosas que cercavam a cidade. Arranjou logo sete pares, um para cada dia da semana. Eram compridas, de grafismos vibrantes, dessas que estão na moda. Quem a encontrava logo dizia “que bonitas suas galochas coloridas”, mas para ela não adiantava, tudo era marrom.

Ao ver a mocinha de galochas andando tão cabisbaixa, o povo pensava que estava apaixonada. Não notavam que seu foco era o chão. Ela não descuidava dos passos por um momento e, de tanto medo de se distrair, decidiu vestir um cabresto. Assim, ela mesma puxava sua cabeça a qualquer tentativa de seu corpo ficar ereto. Para baixo e avante, ela trotava.

A mocinha de galochas e cabresto ainda andava muito da preocupada com os odores da vida. Cismou que precisava de máscaras perfumadas. Mas essas não estavam na moda, nem existiam. Então customizou: comprou caixas de máscaras descartáveis na loja de equipamentos médicos em frente à Santa Casa de Misericórdia e lascou perfume nelas. A princípio o aroma não agradava, mas acostumou-se, acostuma-se com tudo. Só faltava dar jeito nas cores, meu Deus, as cores!

De galochas, cabresto e máscara, a mocinha trotou até a Vinte e cinco de Março em busca de visão multicor. Pediu à vendedora da loja de fantasias que lhe mostrasse os óculos mais coloridos. A vendedora jogou diversos modelos em uma capa de Super-Homem e se abaixou para mostrar a mercadoria, pensando “se aparecer bicho mais corcunda que esse, estoura que é furúnculo”. A mocinha colocou todos os óculos que pôde e foi para o metrô.

Nesse ponto, o povo, que achava graça, agora torcia o nariz. E quando passava a mocinha, viravam a cara. E quando ela tentava mostrar por que o mundo era marrom, o povo escorregava em fuga. Quem seria corajoso o bastante para dar razão à mocinha? Ninguém sentia o que a ela sentia, por isso ninguém entendia.

A mocinha de galochas, cabresto, máscara cirúrgica perfumada e muitos óculos coloridos passou de preocupada a conformada. Preferiu viver na merda a dar explicação.

CONTADOR DE HISTÓRIAS, por Anna Marotti

Julho 5, 2008 por aicinema

A saga acontecia todas as noites quando minha mãe ajeitava o cobertor xadrez sobre meus ombros. Adiava a decisão de fechar os olhos, mas uma hora a corrida começava. Tão intensa, que sentia um túnel luminoso se abrindo dentro da minha medula, bombeando insistente uma vida estranha a mim.

Sempre achei que se ela contasse histórias ou encerrasse meu dia com um beijo, aquela vida paralela não encontraria fôlego. Na impossibilidade de tais afetos, fugi.

Aos poucos passei a visitar a vizinhança por mais tempo, até decidir cruzar definitivamente a fronteira. Claro como era antes apenas no escuro da noite.

Ainda incomodado pelo cheiro da lã quadriculada em vermelho e verde, vivi a realidade de desatar laços sem dor e negociação prévia. Não sei se alguém além de mim sentiu conforto afundado em águas tão turvas. Mas eu, se pudesse, tingiria a fumaça com mais cinza, pra me sujar de fuligem quando voltasse à tona.

Vez em quando, ainda deito naquela cama com o velho cobertor dobrado aos meus pés.
A mesma luz trêmula a me velar pelos cantos. Inventando histórias pra me contar.

SONO, por Ali Abou Zeenni

Julho 5, 2008 por aicinema

Fui traído pelo meu próprio sono quando passei a ficar de olhos fechados por mais de quatro horas diárias. Até então não havia experimentado nenhuma amarga insônia, dormia pouco porque preferia produzir mais com os olhos abertos. Mas aquele outubro era diferente de qualquer outra estação. As coisas caminhavam muito bem – um compasso intercalado de provocar inveja. Trabalhava sem reclamar do relógio lento e às vezes até o elogiava; estava há poucos meses de finalizar meus árduos estudos; depois de tantos anos descobria a mulher que comportava meu ego – e eu, o dela. Tudo estava bom. Todos estavam bem. Conseguia dormir mais, não tinha com o que me preocupar, tudo se acertava com o tempo.

Depois de alguns anos praticando a arte de dormir bem passei a acordar pensando no sonho que tivera. Era como antigamente, nos tempos de menino em que era permitido sonhar. Mas justo naquela sexta dormi mais cedo. Deixei os relatórios, livros, cartas, amigos, cerveja e namorada para depois. O ponteiro não passava do primeiro quarto das dez horas e já passava para o primeiro estágio do sono, a melatonina foi liberada. Parecia uma viagem no mundo perfeito. Caminhava e respirava conforme um som de cachoeira, pássaros e batucadas indígenas. Sentia as vibrações que o cérebro mandava à cada pedaço meu, pela primeira vez uma completa harmonia entre meu corpo e o ambiente que minha mente criava. Ah, tudo era perfeito demais. Morava no lugar dos meus sonhos, com a vida que sempre imaginei até chegar ao estágio três do sono NREM já querendo ir pro quarto. Lúcia, o par perfeito, minha namorada estava ali do meu lado. Casamos e tivemos 4 filhos, tudo do jeito que planejamos. E sem perceber encontrei o REM. “É neste período que ocorre a maioria dos sonhos e corresponde a 20-25% do sono total” dizem os especialistas. Pois é.

Eu sempre disse a todos que nascemos do jeito que deve ser e não adianta lutar contra a própria natureza. Não sou dos que precisam dormir mais do que cinco horas, quatro pode ser um bom número. Devia ter acreditado mais nisso. Quando acordei, o primeiro pensamento não foi o sono e sim o tradicional “nem tudo são flores meu bem” ou “o que é bom dura pouco”. Qualquer coisa parecida.

Lúcia tinha saído para o aniversário da irmã, eu só a veria no dia seguinte, tudo combinado para o sábado. Pelo menos foi o que tínhamos acertado naquela sexta de sono profundo. Ela me ligou de madrugada, foram cinco chamadas não atendidas que só descobri ao acordar. Devia ter dormido menos. Lúcia batera o carro e, além de derrubar o motoqueiro, por intenção do destino, sua cadela Pop, que estava no banco da frente sem cinto de segurança, foi com a cabeça em direção ao vidro da frente. Não vi nada disto com o acalentador REM. Nos meus sonhos tudo era perfeito e Pop dava cria a três filhotes.

Acordei, pensei nas frases de desânimo depois de ela me contar o que tinha acontecido e insistir no motivo de eu não ter atendido às suas ligações. “Insensível” dizia-me. “Você não me dá mais atenção”. Não me canso de alertar amigos contra o drama que a mulher alcança quando se está desprevenido.

- “Eu estava dormindo, tive sonhos lindos com a gente e…”
- “E o que hein, Eduardo!?”
- “Eu não posso contar.”
- “O que? Eu aqui, sofrendo, chorando, triste e você vem me dizer que você estava sonhando?”

Parecia uma clássica filmagem norte americana em que, de repente, o casal se desentende, e aí o mocinho apaixonado pela mocinha tem que atravessar o mundo para salvar o amor que sente por ela. No fundo é exatamente isto que muitas mulheres procuram e talvez devesse ser assim para todos os casais. Elas sabem muito bem como fazer um homem se entregar.

Eu não me entreguei. Nem ela. Depois de perder Lúcia, o REM não voltou. Passei a estudar todos os detalhes do sono já que não conseguia mais dormir. Nada estava bom. Ninguém estava bem. E tudo por causa da hipotonia da musculatura esquelética, oscilações dos músculos timpânicos e a baixa freqüência, assim explicam os manuais do sono. O dos homens comuns que dormem pouco diz que não se deve contar o sonho, senão não acontece. Foi isso que Lúcia me ensinou.

ATRÁS DA JANELA INVISÍVEL, por Campos Forte

Julho 5, 2008 por aicinema

O barulho da chuva completava o rugido dos motores e os gritos estridentes das buzinas e sirenes.
Debaixo daquele viaduto eu tentava me acomodar bem no canto, aproveitando um pedaço do teto ruidoso.

À noite aquilo parecia uma selva fantástica com grandes felinos de aço rugindo em torno de presas semimortas, as luzes vermelhas e os faróis eram olhos faiscantes que queimavam a escuridão.

O barulho e as luzes não incomodavam os outros, já agregados aquele cenário pirotécnico de aço, concreto e carne. Olhava aqueles veículos apressados, movidos por vidas mecânicas, indiferentes a tudo, a todos, até as suas próprias vidas, querendo apenas chegar em seus destinos no conforto do seu habitat.

Já ouvi dizer que existem diversos mundos paralelos, tanto numa mesma realidade como em tantas outras possíveis formando cascatas infinitas, separadas por janelas; onde muito raramente podemos, às vezes, notar as outras dimensões além da que nos encontramos.

Quantas vezes passei por lugares como este e olhei as estruturas de concreto, imaginando as técnicas utilizadas, o material empreendido, muitas vezes bem inferior ao que a obra merecia, mas nunca parei para notar o pequeno mundo destas pessoas que hoje fazem parte do meu próprio.

Num dia dormia em finas sedas, em camas caras sob tetos luxuosos indiferente a qualquer que fosse o clima lá fora, no outro procuro me desviar inutilmente dos respingos das poças, me agarrando a este pequeno trapo como se fosse o único resquício que sobrou da minha dignidade.

As buzinas começavam a berrar com muita histeria. Notei que o sinal já tinha dado passagem à manada de ferro, mas uma BMW parada ao meu lado, tão perto que acho ter sido possível tocá-la, empacava o trânsito nervoso.

Tentei olhar através do vidro fumê a pessoa que se ocultava. Um frio estranho me cortou por dentro, enquanto o vidro elétrico começava a baixar. Uma mão conhecida se pôs para fora e um rosto apareceu. Era o meu, olhando para os meus próprios olhos.

CORTINA, por Anna Marotti

Junho 22, 2008 por aicinema

Diante da mesma janela
Um de nós
Virou as costas

Flores brancas rasteiras
Sobre tapete frio de paz

Você sobre o verde vê
Apenas os traços de cal
Demarcando território

Por esta janela
Embora pequena
Paisagens se desenham
Do tamanho do olho
No ângulo do desejo

Com goiva caprichosa
Entalho a moldura da janela
Envernizo
Ponho vasos

As árvores lá fora
Parecem as mesmas
Sem o reflexo dos olhares
Que interferiam na cor.

DIONIZIO, por Anna Marotti

Junho 22, 2008 por aicinema

O de batismo era estranho
mas o apelido tinha nome de banda de rock
e pra quem preferir biológicas – de contraceptivo feminino.

Para ela humanas e atenção
para ele drinks e metáforas.

O humor dele como agulhas.
daquelas que bordam, mas não cerzem.

A incerteza dela, de cunho processual, buscando provas.

Aos poucos as palavras tomaram um sentido -
um rumo para ele, uma esperança para ela.

Como nas telas
Como nos palcos
Como nas ruas.

FOCO AVESSO, por Anna Marotti

Junho 22, 2008 por aicinema

Mais fascínio que medo
menos conforto
mais conflito.

Mergulho na sombra aos gritos e de asas abertas.
absorvo cada instante do contato vento / corpo
abro mão da delicadeza fria do brilho imenso que me vigia de cima a vida toda.

Da luz não quero a denúncia
no breu encontro o caminho.

SANTA CEIA, por Anna Marotti

Junho 22, 2008 por aicinema

Somos filhos de famílias desfeitas.

Juntos na mesma mesa
Digerimos – caldos, afagos,
recolhemos – cacos e migalhas.

Ajudamos uns aos outros
a lavar pratos
enxugar facas e lágrimas.

Entre uma página e outra do álbum
conselhos nulos.
No quintal cochichos.

Enquanto estendemos as colchas
mamãe bate a roupa na pedra – e pede.

Que o sol
ilumine mas não seque
a ilusão no cabide.

TRATADO, por Anna Marotti

Junho 22, 2008 por aicinema

Se posiciona com desejo
onde julga ser
o começo.

Num encontro
umedece e lubrifica a esfera
valsa livre no branco.

De fôrma ou de mão
o traçado se alinha disforme
pelo infinito virgem.

Muda a cor
Deixa marcas
Firma compromissos
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Nem sempre cumpre seu papel.