
Fui traído pelo meu próprio sono quando passei a ficar de olhos fechados por mais de quatro horas diárias. Até então não havia experimentado nenhuma amarga insônia, dormia pouco porque preferia produzir mais com os olhos abertos. Mas aquele outubro era diferente de qualquer outra estação. As coisas caminhavam muito bem – um compasso intercalado de provocar inveja. Trabalhava sem reclamar do relógio lento e às vezes até o elogiava; estava há poucos meses de finalizar meus árduos estudos; depois de tantos anos descobria a mulher que comportava meu ego – e eu, o dela. Tudo estava bom. Todos estavam bem. Conseguia dormir mais, não tinha com o que me preocupar, tudo se acertava com o tempo.
Depois de alguns anos praticando a arte de dormir bem passei a acordar pensando no sonho que tivera. Era como antigamente, nos tempos de menino em que era permitido sonhar. Mas justo naquela sexta dormi mais cedo. Deixei os relatórios, livros, cartas, amigos, cerveja e namorada para depois. O ponteiro não passava do primeiro quarto das dez horas e já passava para o primeiro estágio do sono, a melatonina foi liberada. Parecia uma viagem no mundo perfeito. Caminhava e respirava conforme um som de cachoeira, pássaros e batucadas indígenas. Sentia as vibrações que o cérebro mandava à cada pedaço meu, pela primeira vez uma completa harmonia entre meu corpo e o ambiente que minha mente criava. Ah, tudo era perfeito demais. Morava no lugar dos meus sonhos, com a vida que sempre imaginei até chegar ao estágio três do sono NREM já querendo ir pro quarto. Lúcia, o par perfeito, minha namorada estava ali do meu lado. Casamos e tivemos 4 filhos, tudo do jeito que planejamos. E sem perceber encontrei o REM. “É neste período que ocorre a maioria dos sonhos e corresponde a 20-25% do sono total” dizem os especialistas. Pois é.
Eu sempre disse a todos que nascemos do jeito que deve ser e não adianta lutar contra a própria natureza. Não sou dos que precisam dormir mais do que cinco horas, quatro pode ser um bom número. Devia ter acreditado mais nisso. Quando acordei, o primeiro pensamento não foi o sono e sim o tradicional “nem tudo são flores meu bem” ou “o que é bom dura pouco”. Qualquer coisa parecida.
Lúcia tinha saído para o aniversário da irmã, eu só a veria no dia seguinte, tudo combinado para o sábado. Pelo menos foi o que tínhamos acertado naquela sexta de sono profundo. Ela me ligou de madrugada, foram cinco chamadas não atendidas que só descobri ao acordar. Devia ter dormido menos. Lúcia batera o carro e, além de derrubar o motoqueiro, por intenção do destino, sua cadela Pop, que estava no banco da frente sem cinto de segurança, foi com a cabeça em direção ao vidro da frente. Não vi nada disto com o acalentador REM. Nos meus sonhos tudo era perfeito e Pop dava cria a três filhotes.
Acordei, pensei nas frases de desânimo depois de ela me contar o que tinha acontecido e insistir no motivo de eu não ter atendido às suas ligações. “Insensível” dizia-me. “Você não me dá mais atenção”. Não me canso de alertar amigos contra o drama que a mulher alcança quando se está desprevenido.
- “Eu estava dormindo, tive sonhos lindos com a gente e…”
- “E o que hein, Eduardo!?”
- “Eu não posso contar.”
- “O que? Eu aqui, sofrendo, chorando, triste e você vem me dizer que você estava sonhando?”
Parecia uma clássica filmagem norte americana em que, de repente, o casal se desentende, e aí o mocinho apaixonado pela mocinha tem que atravessar o mundo para salvar o amor que sente por ela. No fundo é exatamente isto que muitas mulheres procuram e talvez devesse ser assim para todos os casais. Elas sabem muito bem como fazer um homem se entregar.
Eu não me entreguei. Nem ela. Depois de perder Lúcia, o REM não voltou. Passei a estudar todos os detalhes do sono já que não conseguia mais dormir. Nada estava bom. Ninguém estava bem. E tudo por causa da hipotonia da musculatura esquelética, oscilações dos músculos timpânicos e a baixa freqüência, assim explicam os manuais do sono. O dos homens comuns que dormem pouco diz que não se deve contar o sonho, senão não acontece. Foi isso que Lúcia me ensinou.